Um diálogo entre o Governo e Você

Todos os dias você paga imposto.

Já é lugar comum dizer que de Janeiro até Maio trabalhamos para pagar os impostos.
Cofins, PIS, IPI, ICMS, ISS; dinheiro para a união, para os estados e municípios.

Mas e se o governo olhasse para você e dissesse


“Ei Fulano, quero te devolver parte do dinheiro para você fazer algo bom.”

Muito desconfiado, você responderia,


“Hm… ‘algo bom’ tipo o quê?”
“Ah, sei lá, inventa alguma coisa.”
“…”
“Você não é cientista, pô? Confia…”
“De quanto dinheiro estamos falando?”
“Alguns milhões.”

E aí, o que você faria?

Aposto que você nunca imaginou que o governo poderia te dar dinheiro.

Você já ouviu bastante sobre a Lei Rouanet para auxílio de artistas ou de grandes obras financiadas por capital público.

Mas dinheiro desse jeito assim, aposto que você nunca ouviu falar.

“Tudo bem, qual a pegadinha?”
“Que pegadinha, rapaz?”
“Eu te conheço muito bem, você não dá dinheiro assim… ‘de graça.’”
“Isso é bem verdade, mas quando é que eu prometi que ia ser de graça?”
“… touché. O que eu preciso fazer?”
“São só três coisinhas, e duas eu sei que você tem.”
“Como assim?”
“Veja, é que eu não posso dar o dinheiro diretamente a você sabe? Preciso que você esteja em uma instituição. A sua universidade ou empresa servem.”
“Certo.”
“A segunda coisa é que você sabia escrever.”
“Tá, mas isso ai é qualquer um.”
“Caro, Fulano, se você soubesse cada coisa que a gente encontra por ai… Não preciso só de um alfabetizado. Eu preciso que alguém que escreva bem.”
“Tudo bem, praticamente tudo o que eu consumo é em texto. Deve ser tranquilo.”
“Sim, e você tem experiência acadêmica também, isso ajuda.”

Qualquer empresa com potencial para inovação, pode ser considerada. Startups, tem linhas de fomentos especialmente para elas. Instituições de Ciência e Tecnologia (ICTs) são parceirias requeridas para a maior parte dos fomentos e há editais só para elas.

Se você trabalha ou estuda em uma dessas instituições, provavelmente você tem as ferramentas para levar a cabo um projeto.

Mas não é só isso. O que mais seria preciso??

“E qual é a última coisa?”
“Essa é que pega.”
“Por quê?”
“A terceira coisa é que você tenha uma boa ideia.”
“Ah isso ai é fácil! Eu tenho mil ideias, eu sugiro…”
“Não, não é bem assim. Eu tenho uma lista.”
“Lista?”
“É, uma lista do que você pode inventar.”
“Como assim? Não era para eu inventar alguma coisa?”
“Claro, mas não dá pra ser qualquer coisa também.”
“…”
“Fulano, eu tenho certas prioridades. A gente tá atrasado em algumas coisas. Seria legal inventar algo nesse sentido, sabe?”
“Não… exatamente…”
“É assim, eu preciso de algo novo em uma área que a gente tá com problemas, entendeu? Então eu digo a área e você inventa alguma coisa. E daí te dou o dinheiro.”
“Tá, me mostra a lista.”

As linhas temáticas propostas pelos órgãos de fomentos não surgem do nada. Comitês organizadores e representantes do governo estabelecem diretrizes que devem ser cumpridas com base em necessidades ainda não supridas no âmbito tecnológico, industrial e de soberania.

Ou seja: você é livre para inventar o que quiser, desde que “o que quiser” caiba no escopo. Não é como se você pudesse escolher “qualquer cor, desde que seja preto”, mas também não dá pra escolher cor camaleão mate.

“Bom, com base nessa sua lista, pensei em fazer…”
“Nã ãh, por escrito.”
“Que exigência!”
“Vai por mim: toda ideia parece excelente antes de ser colocada no papel.”

A escrita do projeto não só permite a avaliação da ideia, mas é também um mecanismo que força a organização das ideias. Projetos que são rejeitados muitas vezes não são ruins, só são mal organizados.

Além disso, a arquitetura do projeto escrito evidencia outras facetas não enxergadas antes e sublinha as possibilidades de colaboração.

“E tem mais uma coisa.”
“O quê?”
“Preciso que você contribua com o projeto.”
“Sim, eu vou escrever e gerenciar ele.“
“Digo financeiramente.”
“Mas você não tinha dito que ia me devolver uma parte dos impostos?!”
“Eu vou, mas… você acredita nesse seu projeto?”
“É óbvio!”
“Então invista nele, quero ver.”
”Mas eu já te dou muito dinheiro.”
“Não é pra mim, Fulano, é pro projeto”.

As contrapartidas ou parcelas não financiadas servem para garantir que a empresa também esteja engajada.

Quem já jogou poker saber que as partidas que valem dinheiro são levadas muito mais a sério do que as de graça.

Quando o bolso está na reta, o nível de comprometimento é muito maior. E é por isso que esses mecanismos existem.

“E você só paga se eu gostar do que você escreveu.”
“Tem que aprovar?”
“Claro, gosto sempre de uma segunda opinião… de um especialista.”
“Óbvio, óbvio.”
“Me envie o projeto o quanto antes. Meu pessoal está ansioso para ler o seu projeto.”


Visitamos o passo-a-passo da dinâmica dos fomentos à inovação de maneira nem lúdica.

Mas agora imagine que você é o Fulano dessa história, você tem uma missão de escrever um projeto.
Quais são as ideias que te vem à mente?
Há algo que você já sonhou no passado, mas que nunca pôde realizar?

Conte-nos deixando um comentário!

Inovemos!

Posts Relacionados